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Situações

Judicial ou extrajudicial: o que cada uma custa em controle

Quase toda comparação entre as duas fala de prazo e de custo, que são os critérios menos úteis. A diferença real é quanto da decisão da empresa deixa de ser do sócio, e por quanto tempo.

A comparação que costuma ser feita, e a que decide

Uma das duas é um escudo caro. A outra é um acordo barato com alcance limitado. Escolher sem entender isso é o erro mais comum, e é caro nos dois sentidos.

JudicialExtrajudicial
Alcança quais credorestodos os sujeitos à recuperação, inclusive os que não quiseremsó as espécies de crédito que a empresa escolher incluir
Suspende execuçõessim, amplamentesim, mas só quanto às espécies incluídas no plano
Quem aprovaassembleia de credoresadesão de mais da metade dos créditos de cada espécie abrangida, sem assembleia
Fiscalizaçãoadministrador judicial, com relatório periódiconão há
Duração da supervisãoanos após a concessãoencerra na homologação
Se o plano for rejeitadorisco de falênciaa empresa continua onde estava
Publicidadeamplamenor, mas existe

Ler a tabela de cima para baixo dá a impressão de que a judicial é pior. Ler a primeira linha explica por que ela existe.

A pergunta que decide: o escudo precisa cobrir quem?

Este é o divisor, e ele mudou com a reforma de 2020. Antes, a resposta era simples: quem precisava parar execução ia para a judicial, porque a extrajudicial não parava nada. Hoje a extrajudicial também suspende — o art. 163, § 8º da Lei 11.101/2005 aplica a ela a suspensão do art. 6º desde o pedido, com duas condições que mudam tudo: a suspensão vale exclusivamente para as espécies de crédito abrangidas pelo plano, e só é ratificada pelo juiz se comprovado o quorum inicial de um terço.

A pergunta certa deixou de ser “preciso de escudo?” e passou a ser “o escudo precisa cobrir quem?”.

  • Se a pressão vem de credores que cabem numa espécie identificável — bancos, por exemplo —, a extrajudicial protege contra eles e não carrega o resto.
  • Se a pressão vem de todos os lados ao mesmo tempo, incluindo fornecedores dispersos e execuções variadas, incluir espécie por espécie deixa de fazer sentido e a judicial passa a ser o instrumento adequado.
  • Se o problema é um punhado de credores dispostos a conversar, a judicial é uma armadura para ir ao supermercado: traz publicidade, administrador judicial, assembleia e anos de supervisão para resolver algo que caberia numa mesa.

O que a extrajudicial faz que uma negociação comum não faz

A negociação livre não resolve o credor que não assina. Um credor pequeno pode inviabilizar um acordo que todos os outros aceitaram — e sabe disso, o que aumenta o preço dele.

A homologação de um plano extrajudicial vincula todos os credores das espécies abrangidas, inclusive quem não aderiu, desde que assinado por credores que representem mais da metade dos créditos de cada espécie incluída. É esse o poder que ela tem, e é bastante: transforma a maioria em decisão.

A reforma de 2020 baixou esse quorum, que antes era de três quintos, e criou um caminho de partida: é possível protocolar com adesão de um terço, assumindo o compromisso de alcançar a maioria em noventa dias improrrogáveis — com a faculdade de converter o procedimento em recuperação judicial se não chegar lá.

Três limites precisam estar claros antes de escolher esse caminho.

  • Crédito tributário fica de fora. E ele é o passivo dominante de boa parte das empresas em crise no Brasil. Quando é esse o problema, nem a extrajudicial nem a judicial resolvem sozinhas.
  • Credor com garantia fiduciária também fica de fora. Se o sufocamento vem da trava sobre recebíveis, a extrajudicial não a desfaz — e a judicial também não.
  • Crédito trabalhista entra, mas por outra porta. Desde 2020 pode ser sujeitado à extrajudicial, desde que haja negociação coletiva com o sindicato da categoria. Não é adesão individual, e isso muda o cronograma de quem pretende incluí-lo.

O que a judicial cobra, além de honorários

Publicidade. O pedido é público. Fornecedor encurta prazo, seguradora de crédito reavalia, cliente grande pergunta. Parte do custo da recuperação judicial é o comportamento de quem lê a notícia, e ele começa antes de qualquer decisão do juiz.

Um terceiro dentro da empresa. O administrador judicial acompanha, pede informação e reporta ao juízo. Não gere a empresa, mas observa — e a rotina de prestar contas consome tempo de quem já está sobrecarregado.

A decisão sai da sua mão. O plano é submetido aos credores, que podem rejeitá-lo, e a rejeição tem consequência grave. O sócio deixa de decidir sozinho o destino do próprio negócio no dia em que protocola.

Certidões fiscais. O art. 57 exige a apresentação de certidões negativas de débitos tributários depois de aprovado o plano, o que na prática costuma exigir aderir a parcelamento ou transação. Empresas descobrem isso tarde, depois de meses de processo.

Como a escolha costuma se organizar

  1. 01Existe execução relevante em curso, e ela vem de quantas frentes? De uma espécie identificável, a extrajudicial já suspende. De todos os lados, a judicial entra pela amplitude do escudo.
  2. 02O passivo é concentrado em poucos credores financeiros? Se sim, a extrajudicial resolve com uma fração do custo.
  3. 03O passivo é majoritariamente fiscal? Então nenhuma das duas é a resposta principal, e tratar isso primeiro evita gastar dinheiro no instrumento errado.
  4. 04Existe crédito com garantia fiduciária relevante? Ele vai continuar ali nas duas hipóteses, e o plano precisa ser desenhado contando com isso.
  5. 05A empresa aguenta a publicidade? Há negócios em que a notícia da recuperação judicial custa mais que a dívida.

Nenhuma dessas cinco perguntas é jurídica. Todas dependem de números que a empresa já tem — e é por isso que o diagnóstico vem antes da tese.

Conteúdo informativo. Não substitui a análise do caso concreto, não constitui oferta de serviços e não contém promessa de resultado.